O protocolo identifica produtos comercializados em supermercados e avalia mais de 140 pontos críticos nas fazendas
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A Certificação em Biosseguridade (CBS), desenvolvida pela Embrapa em parceria com a farmacêutica Boehringer Ingelheim, deve alcançar 160 propriedades leiteiras no Brasil. O protocolo, que já identifica produtos comercializados em supermercados, avalia mais de 140 pontos críticos nas fazendas, abrangendo animais, pessoas, veículos, instalações e processos.
A iniciativa surgiu com base em estudos da Embrapa Gado de Leite (MG) sobre medidas de prevenção de doenças nos rebanhos. Durante a pandemia de covid-19, em 2020, a intensificação dos cuidados sanitários reforçou a importância da biosseguridade — conjunto de procedimentos destinados a proteger a saúde humana e animal — além da segurança dos alimentos.
“Cada ponto de contato na fazenda pode representar um risco ou uma barreira de proteção”, resume Bruno Carvalho, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Gado de Leite. A proposta é transformar diretrizes científicas em rotinas que possam ser verificadas, registradas e comprovadas.
Das recomendações à rotina auditável
A base do protocolo remonta a um documento publicado pela Embrapa Gado de Leite em 2018, com orientações para ampliar as barreiras sanitárias na bovinocultura leiteira e evitar a disseminação de doenças parasitárias, bacterianas e virais. Em 2020, a pandemia acelerou a adoção dessas medidas. Algumas fazendas passaram a restringir o acesso de pessoas e veículos à área de produção, exigir jalecos e propés de visitantes (foto abaixo) e instalar rodolúvios (estruturas ou equipamentos sanitários utilizados para a desinfecção de veículos) para lavar os pneus dos caminhões. Eram cuidados comuns em granjas de suínos e aves, mas ainda pouco difundidos na pecuária de leite.
“O produtor de leite está despertando para a questão da biosseguridade”, afirmava, na época, o pesquisador da Embrapa Alessandro de Sá Guimarães. Ele lembrava que, mesmo sem transmitir a covid-19, o rebanho pode transmitir ao ser humano doenças como tuberculose, brucelose e leptospirose. A pesquisadora Wanessa Araújo Carvalho avaliava que a pandemia levaria a uma valorização da biosseguridade e a mais investimentos em tecnologias limpas e seguras.
A certificação transformou essas recomendações em critérios verificáveis. O produtor passou a contar com um diagnóstico detalhado da propriedade e com metas para acompanhar a adoção das boas práticas. O registro sanitário, por exemplo, deixa de ser uma exigência burocrática e passa a contribuir para a segurança do alimento. “Se não temos um registro sanitário confiável, corre-se o risco de enviar leite com resíduo de antibiótico ao tanque”, alerta Carvalho.
Resultados no campo
Os efeitos da biosseguridade estruturada já aparecem nos números das propriedades que adotaram o modelo. Na Fazenda Colorado, em Araras (SP), referência nacional na produção de leite, 100% das vacas recebiam antibióticos no momento da secagem da lactação em 2016. Em 2026, cerca de 80% do rebanho que entra no período seco recebe apenas selante de teto (produto usado na higiene de vacas leiteiras). Os antimicrobianos ficam reservados aos casos estritamente necessários. A mudança aconteceu enquanto o rebanho em lactação crescia de 1.700 para 2.400 vacas, entre 2016 e 2024, e foi acompanhada de queda nos tratamentos contra mastite.
A virada começou com a secagem seletiva, técnica que o diretor da fazenda, Sérgio Soriano, conheceu numa palestra na Itália, em 2017. A implantação foi gradual: em 2024, 64% das vacas já secavam o leite sem antibiótico. “A seleção baseada em critérios técnicos substitui o tratamento universal. A execução e a disciplina vêm norteando a nossa rotina, conectando a saúde dos animais, do ambiente e das pessoas”, afirma Soriano.
Na Fazenda Santa Luzia, em Passos (MG), também certificada, o diagnóstico prévio mudou a lógica dos tratamentos. A propriedade reduziu em 50% o uso de antibióticos para mastite clínica e em 70% para os casos de tristeza parasitária bovina. Dos 3.161 casos avaliados, 1.366 (43%) tiveram resultado negativo e dispensaram o medicamento. Com isso, a fazenda deixou de descartar, por causa do período de carência, 244,5 mil litros de leite por ano, um impacto econômico positivo estimado em R$ 660 mil anuais. “Até quatro em cada dez tratamentos podem ser evitados no modelo convencional. Elevando o status sanitário da fazenda, reduzimos custos e nos preparamos para o mercado internacional”, avalia o produtor Maurício Coelho.
Um problema de saúde global
A redução no uso de antibióticos não é apenas uma questão de custo. A resistência antimicrobiana é considerada uma das maiores ameaças à saúde pública mundial, e o uso indiscriminado desses medicamentos na produção animal contribui para o surgimento de bactérias resistentes. Por isso, o tema é tratado sob o conceito de Saúde Única, que reconhece a interdependência entre a saúde humana, a animal e a ambiental.
Na pecuária leiteira, a mastite concentra boa parte do problema. Estudos com rebanhos leiteiros apontam que entre 52% e 62% do uso total de antimicrobianos está associado ao tratamento e à prevenção da doença. Um levantamento da Boehringer Ingelheim realizado entre 2024 e 2025 em 65 propriedades de bacias leiteiras de São Paulo e Minas Gerais mostra o tamanho do desafio. Em 67,7% das fazendas, a primeira escolha para tratar mastite consistia em tipos de antimicrobianos considerados criticamente importantes para a medicina humana. Em 43,1%, o tratamento começava de imediato, sem diagnóstico, mesmo em casos leves. Apenas 12,3% faziam cultura microbiológica antes de decidir. Mais da metade (53,9%) não registrava os casos de mastite, e 90,6% não pesavam as vacas para calcular a dose dos medicamentos injetáveis.
“O objetivo não é eliminar tratamentos necessários, mas tomar decisões de maneira responsável, com embasamento técnico”, explica Eduardo Pires Macedo, gerente técnico de Ruminantes da Boehringer Ingelheim.
Confiança do consumidor
A biosseguridade também começa a chegar à gôndola. A marca de laticínios Xandô estampa o selo CBS em suas embalagens. Segundo Alexandre Sardo, gerente de marketing e comércio da empresa, 47% dos consumidores apontam qualidade e confiança como os principais fatores de escolha, e 83% se dizem dispostos a pagar mais por um leite de qualidade superior comprovada. Para o produtor, a certificação passa a ser um diferencial de mercado.
Os resultados foram apresentados em um encontro promovido pela Boehringer Ingelheim na Fazenda Colorado. O evento reuniu representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), da Embrapa Gado de Leite, do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), da indústria de laticínios e grandes produtores do País. “A prevenção, o monitoramento contínuo e a tomada de decisão fundamentada em diagnósticos representam o futuro da pecuária leiteira sustentável”, afirmou o diretor de Saúde Animal da Boehringer Ingelheim no Brasil, José Peron.
A implantação do protocolo em 160 fazendas representa um salto de escala para um conhecimento gerado na pesquisa pública. O que em 2020 era um conjunto de recomendações para atravessar uma crise sanitária tornou-se um modelo de gestão capaz de reduzir custos, proteger a saúde dos rebanhos e das pessoas e agregar valor ao leite brasileiro. O legado previsto pelos pesquisadores no início da pandemia, enfim, chegou ao campo.



